Terça-feira, Julho 20, 2004

Para estas «eleições» já não há nada a fazer. Os eleitores nem sequer tiveram o trabalho de sair de casa para irem depositar o seu voto. Tudo se resolveu da melhor forma: o dr. Santana vestiu o seu fato novo, pôs gravata e foi, de automóvel, até Belém onde já o esperava o dr. Sampaio, sentado num confortável sofá. Tiveram uma conversa de circunstância, certamente falaram do calor que se faz sentir, lamentaram os devastadores incêndios, beberam um whisky e pronto, a «eleição» estava consumada. À despedida, o dr. Sampaio ainda disse, para dizer alguma coisa: «Mas veja lá, ó Santana Lopes, olhe que eu fico de olho em si.» O Lopes riu da bela piada presidencial e lá foi todo lampeiro meter-se no automóvel que o levou a S. Bento, à casa tanto tempo habitada por Salazar que ainda lá deambula o seu fantasma. O Lopes achou aquele interior lúgubre e deprimente. «O fantasma não me preocupa muito, – pensou – mas o que eu não suporto é este pivete a D. Maria. As minhas mulheres não têm este cheiro. Tenho de mandar desinfectar esta merda.»
Jamais houve em Portugal eleições tão simples, cómodas e civilizadas!
As próximas Presidenciais, Legislativas ou Autárquicas, já não serão tão civilizadas nem cómodas. Os políticos terão de vergar a mola e sujeitar-se a difíceis e sujos trabalhos para vender o seu peixe.
Os líderes partidários, fazendo das tripas coração, terão de visitar os velhos mercados e outros locais pouco recomendáveis.
Uma vez lá dentro, resistem como podem aos escamosos amplexos das peixeiras, ao horrível bedum dos magarefes, aos putos cagados e ranhosos, ao corpo-a-corpo com velhas mijonas e desdentadas. Os dividendos vêm depois.
O Político com maiúscula necessita de grande estofo e um bom estômago, como foi, por exemplo, o caso do dr. Portas que há anos deu um notável exemplo de amor à tarefa de caçar o eleitorado. Tantas peixeiras abraçou que ainda hoje cheira a peixe. Grande senhor do jet-set, vivendo em ambientes requintados, passeando-se de Jaguar... quando despia o casaco para filar o eleitor, fazia-o com uma bravura e uma determinação que só visto. Era homem para beijar e abraçar, demoradamente, uma mal cheirosa fabricante de queijos, enquanto lhe ouvia e as húmidas lamúrias e reclamações. Ou para entrar na mais imunda das tascas e beber copos com um grupo de bêbados, cujo pivete chegava ao outro lado da rua.
Desses feitos e outros que tais, ele ficou como exemplo e não se tem dado nada mal com o sistema pois já ganhou quase todos os cargos que um político pode ambicionar.
É para este exemplo que chamamos a atenção de todos candidatos às próximas eleições, que não serão ganhas assim à sorrelfa como foram estas. Não podem ficar-se com as jantaradas nos restaurantes de luxo nem em conversas, na televisão, com as belas e bem cheirosas entrevistadoras.
É preciso fossar um pouco na merda.

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