Terça-feira, Janeiro 20, 2004

DOS MACACOS QUE FOMOS AOS MACACOS QUE SOMOS

Ainda hoje se desconhece quanto tempo passou desde que uns macacoides, levantadas as patas da frente, se assumiram como seres pensantes. Numa coisa, porém, os antropólogos estão de acordo: foram muitos (mas muitos) e penosos milénios.
O que representa tantos dias e noites que nos deixa perplexos. Porque, por mais problemas que o homem tenha encontrado pela frente, a sua cabeça devia estar bem mais arrumada do que está – em rigor, devia ser outra e não a que traz pousada no pescoço.
Claro que o progresso é lento e sofre frequentes desvios. Custa, contudo, a entender que quase quatro mil anos depois que o babilónico Hamurabi se saiu com o famoso “Código” – marco genial da nossa capacidade intelectual – ainda hoje sejamos capazes de ir, aos magotes, a Fátima, cantar o Avé, de votar num desses partidos políticos (tanto faz um como o outro, é igual); de suportar a ditadura do televisor sem o rebentar à sarrafada; de fazer do Bibi um caso nacional. Há, aqui pelo meio, grossa sabotagem, isso há – falta saber se por culpa de Deus se do Diabo.
Quatro mil anos após o “Código” de Susa e quase três mil sobre Platão, Sócrates e Aristóteles, haver quem tome a sério o Durão Barroso, admita que o Santana Lopes alape o cu na cadeira presidencial de Belém é surpreendente. Como, aliás, o é achar graça à Teresa Guilherme, ouvir as imbecilidades dum Big Brother, bater palmas ao Baião, acreditar na Manuela Ferreira Leite ou no Paulo Portas e tomar à letra as charlas de Marcelo Rebelo de Sousa.
Pregaram-nos partida e não pequena, leitor; cortaram-nos as vazas e as asas. Porque, nesses gloriosos tempos do Hamurabi, era lícito julgar-se que o homem cedo se tornaria num arcanjo – senhor de nobres gostos e lúcidos saberes – e não no pobre macaco que hoje é, ou voltou a ser.
Macaco a que só falta pôr novamente as mãos no chão, por coerência – o que, na certa, lhe traria vantagens para sobreviver como espécie. Assim, erecto e inepto, não vai longe.

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